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Quando falamos em
velocidade, uma capacidade neuro-motora tão importante para a
maioria dos esportes, devemos ter em mente que, principalmente
dentro dos desportos coletivos, ela raramente se manifesta de forma
simples, mas quase que em absoluto em sua forma complexa.
A velocidade para o treinamento de futebolistas foge ao conceito
clássico que aprendemos quando iniciamos o curso de educação física
na faculdade. De forma simplificada, entendíamos de acordo com a
maioria dos autores que num trecho de 100 metros, numa prova
individual em que a velocidade é exigida ao extremo, atletas de
elite teriam a capacidade de acelerar até aproximadamente 30-40
metros, manterem o ritmo da velocidade até os 70-80 metros e
desacelerar a partir dessa distancia.
Logicamente, se você está acostumado a observar partidas de futebol,
mesmo sem análise cientifica alguma, jamais deve ter visto algum
jogador executar um tiro de 100 metros e muito menos, de forma
continua e em linha reta, 200 ou 300 metros. Isso serviria sim como
método de treino aos velocistas do atletismo. Mesmo que alguns
profissionais que militam na preparação física no futebol dispensem
a tendência mundial sobre especificidade do treinamento e ainda
insistam em embasar seu conhecimento com as experiências realizadas
com atletas dos esportes individuais e transferir isso para o
futebol, não devemos concordar com essa confusão metodológica tão
evidente.
A literatura e os resultados com a metodologia correta têm sido
recompensadores para muitos profissionais, que aprenderam a treinar
futebol com futebol e não com montanhas, rampas, escadarias, areia e
tantas outras coisas que não fazem parte de nada relacionado ao jogo.
Para contestar esses aparatos e métodos, alguns estudos na área da
fisiológica seriam o bastante - a ciência valida as novas tendências
-, mas o bom senso e a percepção de que o futebol evoluiu são
determinantes para o inicio da mudança.
O “novo” às vezes confunde e assusta. Em relação aos conceitos de
velocidade, por exemplo, há uma boa evolução consensual entre o meio
acadêmico, pois o discurso para os que pretendem ou trabalham com
futebol já passa pelo raciocínio de que o conceito clássico do
treinamento de velocidade utilizado necessariamente no atletismo não
quer dizer muita coisa quando temos por objetivos desenvolver ou
mesmo manter as manifestações da velocidade de futebolistas.
Pensando nisso, há algumas definições que deixam muito clara a idéia
de como começarmos a criar uma metodologia próxima do ideal para o
treinamento no futebol, respeitando a especificidade da atividade
competitiva.
· Velocidade de percepção: Perceber as situações do jogo e
modificá-las o mais rápido possível, muitas vezes mesmo sem tocar na
bola.
· Velocidade de antecipação: Capacidade de adiantar-se ao movimento
do adversário ou do desenvolvimento do jogo.
· Velocidade de decisão: Algumas jogadas não são realizadas não por
falta de habilidade, mas sim por falta de decisão. Isso mostra que
não é suficiente somente perceber algo, mas sim decidir rapidamente
e objetivamente a jogada.
· Velocidade de reação: Fintar, reagir às fintas, saídas rápidas em
espaços vazios, recuperar bolas mal passadas, bolas que desviam,
etc.
· Velocidade de movimento sem bola (cíclico e acíclico):
Deslocamentos repetidos em aceleração em espaços amplos para busca
de melhor posicionamento, ou movimentos em pequenos espaços e ações
isoladas com fintas, etc.
· Velocidade de ação com bola: Inclui os componentes coordenativos e
técnicos do futebol. Essa manifestação de velocidade tem por base a
percepção, antecipação, decisão e reação.
· Velocidade de habilidade: É a forma mais complexa da manifestação
da velocidade. Não é definida somente pelas ações energéticas e
musculares, pois para exercer a habilidade no esporte necessitamos
de raciocínio técnico, ou seja, compreensão do jogo.
As distâncias percorridas: quantificação e qualificação
Detectar os espaços percorridos durante uma partida se tornou algo
bastante simples. Uma boa filmagem, um GPS, um programa simples no
computador e alguns cálculos para conversões numéricas ou gráficas
de imagens nos permitem observar de forma exata a distância total e
o perfil de velocidade de cada atleta durante uma partida de futebol.
Outros fatores também devem ser levados em consideração para a
organização do treinamento: posicionamento, nível de treinabilidade,
nível de adaptação, ações técnicas, numero de sprints em suas varias
distâncias, distâncias parcial e total.
Segundo a maioria das análises videográficas conhecidas até hoje,
identificamos que atletas de futebol de elite chegam a repetir de 30
a 100 sprints em distâncias variadas entre 5 a 40-50 metros,
dependendo de seu posicionamento em campo.
Sabe-se também que a maioria dos sprints em alta velocidade gira em
torno de 20 a 25 metros. Mas toda essa análise quantitativa do
desempenho do atleta não fornece dados suficientes para entendermos
a qualidade do desempenho. Precisamos sempre unir a avaliação
quantitativa às observações qualitativas, ou seja, se pensamos em
velocidade, precisamos entender de que forma foi executado o
movimento.
Esses são passos importantes para o entendimento do desempenho real
de cada jogador. Considerando esses dados sobre distâncias
percorridas em jogos de futebol, cada dia mais evidentes na
literatura internacional, fica claro que os jogadores de futebol não
necessitam da mesma “velocidade” que um corredor de 100 ou 400
metros.
Nessas modalidades cíclicas, os métodos de treinamento também seguem
o princípio da especificidade e basicamente essa ordem metodológica
de trabalho: velocidade de reação, aceleração e resistência de
velocidade de forma exclusivamente cíclica. O futebol se difere
muito dos métodos de velocidade do atletismo, ou seja, não é cíclico,
tem características intervalas e intermitentes.
Para desenvolver as várias manifestações da velocidade no futebol,
podemos criar métodos motivacionais a partir de estratégias simples.
Os pequenos jogos e confrontos individuais com bola atraem muito os
futebolistas, pois além de se parecerem muito com a disputa real,
cada jogador pode utilizar em muitos momentos do trabalho a
criatividade nas ações contra seu “adversário” desenvolver métodos
de treinamento para futebolistas em que a velocidade esteja
relacionada diretamente com a habilidade individual deve ser a
tônica da maioria das sessões de velocidade.
O que adiantaria uma capacidade de aceleração extremamente bem
desenvolvida ou mesmo uma ótima força de saltos, se o futebolista
não conseguisse utilizar essas manifestações em situações adequadas
do jogo? Os métodos de trabalho devem representar as ações
competitivas para que o atleta reconheça as situações dos jogos e a
capacidade que tem para enfrentá-las na disputa.
Outro detalhe que nunca podemos deixar passar despercebido é que
força e velocidade são componentes que se interagem completamente. O
bom desenvolvimento das manifestações de força, assim como todos os
exercícios coordenativos, está diretamente associado ao
desenvolvimento da velocidade. |